segunda-feira, 23 de julho de 2012

Virando do Avesso: Donnie Darko



Este texto eu venho preparando desde o início do Blog. Quando postei a análise de cena do filme Em Busca do Cálice Sagrado já tinha em mente colocar uma serie de críticas mais elaboradas. Estava desenvolvendo alguns textos desta serie, quando perdi todo o conteúdo do meu HD. Tive que recomeçar tudo de novo. A serie Virando do Avesso é uma análise mais minuciosa dos filmes e series que pretendo comentar. Não se trata de uma crítica banal, ou uma análise enxuta que venho fazendo, até então em muitos posts. Como foi no comentário do novo Homem-Aranha e de Prometheus. Sobre estes dois filmes optei não querer ir muito além com a análise, pra não soltar qualquer tipo de spoiler. Portanto, quem for ler qualquer texto desta serie vai não só encontrar spoilers, como também saberá o filme inteiro, de cabo a rabo, virado do avesso, como diz o título da serie. Não se preocupem com o teor do texto, pois prometo não desenvolver algo maçante e chato de se ler. Quero trazer diferentes interpretações para o mesmo filme e procurar fugir do óbvio.

O filme escolhido desta semana é o cultuado Donnie Darko. Para quem ainda não viu, é a história de Donnie um adolescente com distúrbios psicológicos, que precisa lidar com o sonambulismo, visões de um coelho gigante e o suposto apocalipse que acontecerá em 28 dias. Se você achou essa sinopse absurda, então dou alguns motivos para assistir ao filme: Ótimo elenco, trilha sonora cativante, uma homenagem a cultura pop dos anos 80, como também faz uma crítica social dos EUA. É um filme instigante, que merece ser visto e revisto várias vezes. Para quem ainda não viu o filme aviso que o restante do texto possui spoilers, portanto não recomendo que continuem a leitura. A partir de agora vamos desvendar (ou não) alguns dos mistérios de Donnie Darko e a teoria do Universo Tangente.


Uso como base desta análise a versão do diretor de Donnie Darko. Assisti novamente ao filme fazendo minhas anotações para as cenas mais pertinentes, tentando ficar atento aos detalhes que normalmente não prestamos atenção. Considero esta versão do diretor uma expansão da experiência em assistir ao filme Donnie Darko. Prefiro chamar esta versão de Donnie Darko 1.5. O motivo é que acho indispensável assistir a versão original primeiro pra depois assistir a versão do diretor. Algumas cenas estão explicadas com mais detalhes nesta nova versão. Enquanto outras foram colocadas de maneira a darmos outra interpretação ao filme. Alguns acusaram a versão do diretor estragar a experiência instigante do original. Eu discordo. Acredito que a nova versão é uma nova experiência e um novo olhar para Donnie Darko.  Não quero ficar de enrolação e vamos ao que interessa.

Começo pelo óbvio do filme: A história de Donnie Darko é cíclica. Logo no início do filme, quando a tela ainda está nos créditos iniciais, escutamos o som da turbina de um avião em meio a uma tempestade. Para quem assiste ao filme pela primeira vez, é um detalhe que é facilmente ignorado. O som é contrastado com o canto de pássaros, que faz parte do ambiente onde o filme começa. A primeira imagem que vemos é o amanhecer em uma montanha. A câmera vira para a estrada e vemos um corpo no chão. Ao se aproximar da pessoa percebemos que ela estava desacordada. O que será que aconteceu a esta pessoa? Donnie desperta sem entender o que aconteceu. Quando a câmera aproxima do personagem vemos que ele está de pijama. É a partir deste momento que somos realmente apresentados a Donnie Darko, o herói e protagonista da história. A luz do sol bate na lente da câmera e um clarão (produzido digitalmente) toma conta de toda a tela. Na versão do diretor, Donnie acorda com a voz distorcida de Frank, “Wake Up”. Logo em seguida aparece um insert de um close no olho (com a pupila dilatada) de Donnie, quando surge rapidamente o desenho da cabeça do coelho Frank, no centro da tela. Todos estes elementos que eu descrevi nesta primeira cena estão espalhados por todo filme. O modo sutil como Donnie é apresentado ao público indica a aura de mistério que ronda este personagem. Quem assiste ao filme pela segunda vez, percebe que aquele cenário é o mesmo de quando ele faz a viagem no tempo. O óbvio do tempo cíclico no filme, pode também indicar outra coisa: a subjetividade do protagonista. Ele é um personagem que sofre de esquizofrenia e tem constantes casos de sonambulismo. Fica difícil distinguir o que é a “realidade” da “alucinação” do personagem. Os conceitos metafísicos elaborados pelo diretor Richard Kelly podem também ser encarado como parte do universo subjetivo do personagem.

Nas cenas seguintes conhecemos um pouco da cidade onde Donnie vive com sua família. O carro de Frank aparece de maneira quase subliminar (só percebi assistindo ao comentário em áudio do diretor). É época de Halloween, um detalhe que pouco influência na trama, mas é por causa desta data que Frank desenvolve sua fantasia de coelho macabro. A mãe do Donnie está lendo o livro IT de Stephen King, que basicamente fala da personificação do medo. Na geladeira da casa, está o aviso “Onde Donnie está?”, mostrando que os casos de sonambulismos são freqüentes. Em uma destas seqüências é mostrado ao espectador que a história se passa em 1988. O número 8 representa o infinito, o que pode simbolizar a jornada cíclica do personagem. A família discute política na mesa do jantar: Quem será melhor o presidente? Bush (pai), ou Dukakis? Saber o ambiente em que Donnie está situado ajuda entender algumas decisões que o personagem toma ao longo do filme. Outro tema pertinente no filme é sobre o conceito de livre arbítrio, amplamente discutido por toda a trama. Donnie é afetado por todos os tipos de influências ao seu redor. Ele não é um adolescente alienado, mas ainda não consegue entender o seu “propósito” como ser humano. Sua família não o repreende por seus atos, amando Donnie incondicionalmente, no entanto também não sabem como lidar o distúrbio do filho. Em uma cena da versão do diretor, Donnie pergunta ao seu pai sobre sua “loucura”, que o consola dizendo para continuar sendo uma pessoa íntegra e por esse motivo é diferente dos demais: “Todos são parte de uma grande conspiração de bobagens. Eles tem medo de pessoas como você, pois sabem que é muito mais esperto que qualquer um deles”. Donnie tem acompanhamento psiquiátrico, sendo medicado com placebos, na tentativa de amenizar os efeitos da sua doença psicológica. O fato de conviver em um ambiente familiar “sadio” permite que Donnie tenha uma personalidade forte e que não se deixa abalar com qualquer tipo de provocação. Mas como em qualquer história, o herói (ou protagonista) precisa sair da sua “zona de conforto” quando recebe o seu “chamado a aventura”.

O verdadeiro ponto de virada no filme acontece a partir da meia-noite do dia 2 de outubro de 1988 (a data é reforçada quando aparece na tela). Quando escutamos a voz de Frank mandando Donnie acordar, é iniciado a abertura do universo tangente. O grande mistério não resolvido no filme é saber quantos universos tangentes existiram além do que é apresentado na história. Quando Donnie encontra com a imagem do coelho Frank, ele está em um estado semi-consciência. Donnie sabe o que está acontecendo, mas está entorpecido demais para confrontar a suposta alucinação. Ele ri incrédulo da profecia apocalíptica de Frank, mas resolve “seguir o coelho”. Em seguida acontece a queda da turbina no quarto de Donnie. Naquele momento houve uma “trapaça no destino”, sendo “o escolhido” para trazer o “equilíbrio no universo”. No livro da Roberta Sparrow, A Filosofia da Viagem no Tempo, Donnie é considerado um “Receptor Vivo” do “Artefato” (a turbina de avião) deste universo tangente. Apenas o “Artefato” e a consciência do “Receptor” são capazes de viajar no tempo, formando um elo entre o universo tangente (realidade paralela) com o universo primário (a realidade propriamente dita). Toda essa teoria maluca foi elaborada pelo diretor, bem antes de realizar este filme. Fragmentos e extensões da Filosofia da Viagem no Tempo estão nos seus filmes seguintes: Southland Tales e A Caixa.

Quando Donnie desperta no campo de golfe a primeira coisa que vemos é luz do sol estourando na tela e um homem o chamando. Em seguida aparece Jim Cunningham, o guru da auto-ajuda, fazendo graça com a situação de Donnie. Para os dois “adultos” Donnie estaria de ressaca, como justificativa para a estranheza da situação. O tempo restante para o mundo acabar está marcado no braço de Donnie servindo como lembrança física daquele encontro surreal. Ao retornar para sua casa encontram policiais e bombeiros cercando o perímetro. Quando vê uma turbina sendo retirada do seu quarto, não entende o que está acontecendo. Nas palavras do diretor nos comentários em áudio: “A manipulação começou”. Os pais de Donnie ficam em choque por causa do acidente e acham que existe “alguém olhando por ele”. Todos percebem que existe algo de errado no acidente, porém não dão tanta importância para a natureza do fenômeno. No centro da turbina está desenhada a espiral de fibonacci servindo como metáfora de “um ciclo sem fim”. No hotel onde a família está hospedada, o pai de Donnie relembra a estranha morte do seu amigo do colegial Frank (estranha coincidência), que era considerado amaldiçoado. Seria este Frank um viajante do universo tangente? Pelo que indica o livro da vovó morte, a abertura de universos tangentes é algo bastante comum. Quantos universos tangentes existem? No livro existe uma alusão aos povos maias e também ao rei Arthur com a espada Excalibur (o artefato do universo tangente). Eu tenho uma teoria particular que o suposto universo primário do filme também é um universo tangente, que gerou outro universo tangente mais instável. Os grandes acontecimentos históricos seriam influenciados pelo surgimento de universos tangentes. Acho que estou “viajando” demais. Mais tarde irei completar este raciocínio.

Vamos falar sobre o ambiente escolar de Donnie Darko. Um dos momentos antológicos do filme é a chegada de Donnie no colégio, embalado pelo sucesso da banda Tears For Fears, Head Over Hells. A seqüência musical mostra o lugar onde Donnie Darko estuda, resumindo na forma de um videoclipe a apresentação dos personagens que fazem parte do núcleo da escola dentro do filme. Temos os amigos de Donnie, os bullies da escola (os intimidadores é o mais próximo que existe de antagonista da história), a professora conservadora, a bela da escola (posteriormente vira namorada de Donnie), o diretor da escola que faz vista grossa (ele passa pelos bullies que estão cheirando cocaína e finge que não vê), a excluída da turma (que possui um amor platônico por Donnie), o guru picareta da auto-ajuda (sendo oficialmente apresentado na história), o casal de professores subversivos (tanto a professora de literatura, como o professor de física são importantes para Donnie entender sua “missão”) e o grupo de dança do colégio (na qual a irmã de Donnie faz parte). O clipe termina na sala de aula quando a professora de literatura, Karen Pomeroy (Drew Barrymore) apresenta o conto The Destructors, de Graham Greene. Eis o trecho citado: “Estará nas manchetes dos jornais, até mesmo as gangues dos mais velhos que lideram as apostas e os garotos ouvirão com respeito sobre como a casa da velha miséria foi destruída. É como se houvessem planejado a vida toda. Plano alimentado durante as estações. Agora, realizado ao completarem 15 anos na fase mais difícil da puberdade”. Assim como Donnie Darko, Graham Greene também tinha distúrbios psicológicos (bipolaridade para ser mais exato). A interpretação que Donnie faz do conto é bastante coerente com os eventos que serão desencadeados durante seu sonambulismo: “Disseram recentemente, depois de uma grande enchente que destruição é uma forma de criação. Então, o fato de queimarem dinheiro é irônico. Querem ver o que acontece quando sacudirem o mundo. Querem mudar as coisas”. Donnie Darko encarna o mesmo arquétipo de anti-herói sob a persona de um adolescente desajustado como os “jovens” do conto. Para colocar o “universo em ordem”, ele precisa causar impacto no ambiente que vive. Lembro que todos os personagens são mentores de Donnie nesta jornada, podendo influenciar de maneira direta, ou indireta nas suas ações dentro do universo tangente. No livro da Roberta Sparrow, os demais personagens são chamados de “Manipulados Vivos” e “Manipulados Mortos”. Pois quem morreu em um desses universos, tem maior influência com Donnie quando ele está sonâmbulo (como é o caso de Frank).

Outro elemento do filme que preciso dar atenção é sobre a namorada de Donnie Darko, Gretchen Ross. Como na maioria dos filmes de narrativa clássica, todo protagonista tem o seu interesse amoroso (seja realizado em cena, ou não). É o arquétipo do animus/anima presentes na construção dos personagens. Gretchen representa a anima (a projeção do ideal feminino) para Donnie. Ele enxerga nela uma pessoa que convive com problemas sérios e que não é alienada como os demais. Ambos enfrentam dificuldades emocionais e encontram uma maneira de expressarem seus sentimentos sem haver a barreira do preconceito e da discriminação. Um dos maiores motivos de Donnie sacrificar-se no final do filme é por causa de Gretchen. Donnie finalmente entende que para ela ficar viva e recomeçar a vida, ele precisa morrer. Sua namorada acaba servindo como motivação maior que arrumar a bagunça do universo tangente. Lembro que Gretchen é uma “manipulada morta”, juntamente com Frank, têm forte influência sobre Donnie (de uma maneira menos direta como o Frank manipula). Uma teoria é que Gretchen teria morrido de maneira diferente em outro universo tangente. Ela e sua mãe se mudaram para a cidade de Middlesex devido a uma medida cautelar contra o padrasto de Gretchen. No dia que antecede o apocalipse no universo tangente, Gretchen procura Donnie porque sua mãe desapareceu. Não vemos a mãe de Gretchen no filme e o desfecho do desaparecimento dela torna-se inconclusivo. Talvez o padrasto tenha voltado para matar ela e a mãe e as duas possam ter morrido em um universo tangente diferente. Será que Gretchen fica realmente bem, quando o universo primário é restabelecido? Teria sido em vão o sacrifício de Donnie Darko? Ou inconscientemente Gretchen sabe do suposto perigo no futuro e faz alguma coisa para mudar o seu destino? No filme mostra que os “Manipulados” tem resquícios do universo tangente, como se fosse um sonho. Em um diálogo, o casal debate sobre o projeto de ciências, que por coincidência acaba tendo relação com as vagas lembranças do universo tangente: “E se você voltar no tempo e livrar os outros de horas de dor e escuridão, substituindo por algo melhor?”.

Antes que o espectador tomasse conhecimento sobre A Filosofia da Viagem no Tempo, o livro fictício escrito pela personagem Roberta Sparrow, a Vovó Morte. Primeiro somos apresentados a Vovó Morte, uma velha estranha, com o hábito de estar sempre checando a caixa de correio. A personagem foi inspirada em uma pessoa real, que fez parte da infância de Richard Kelly, também apelidada pelos garotos da vizinhança de Vovó Morte. Na primeira cena em que ela aparece, é quase atropelada pelo pai de Donnie e não esboça nenhuma reação de surpresa, ou espanto. Ela sussurra algo no ouvido de Donnie e só no final sabemos a mensagem: “Cada criatura na terra morre sozinha”. Roberta Sparrow sabe que Donnie Darko é o “Receptor Vivo”, aquele que vai guiar o “artefato” (a turbina) de volta para o universo primário. A história pregressa da personagem conta que Roberta era uma freira que elaborou esta teoria, mas enlouqueceu devido às fortes coincidências com a realidade. Os inserts do livro da Roberta Sparrow estão presentes na versão do diretor, e ajudam a expandir a compreensão na jornada de Donnie. A Vovó Morte é única personagem viva (além de Donnie, é claro) que reconhece estar presa em um desdobramento do universo tangente. Talvez por isso ela pouco se importe com o que acontece consigo, sua maior motivação é guiar Donnie de volta para o universo primário. Para que isso aconteça, primeiro ela precisa receber a carta do “Receptor Vivo”. Talvez Roberta Sparrow tenha enlouquecido por descobrir que as aberturas na quarta dimensão acontecem de maneira constante e que a qualquer momento ela possa fazer parte de uma. Quem sabe isso dê força para a teoria que o universo tangente seja apenas um “universo subjetivo” em que a pessoa fique presa a uma alucinação da realidade. O fato de ela entender a natureza da formação de um universo tangente faz com que ela questione o tempo todo se realmente está presa em uma “outra realidade”.

Neste processo de entendimento de sua jornada, Donnie Darko tem na sua terapeuta, doutora Thurman, alguém que serve como ponto de equilíbrio entre o “real” e o que possa ser supostamente “loucura”. Ela é única que sabe da relação do coelho Frank com o apocalipse do universo tangente. Ao invés de rotular Donnie como “garoto problema”, ela tenta entender o seu processo psíquico através da terapia de regressão hipnótica. Ao analisar as diversas regressões a Dra. Thurman descobre os desejos e sentimentos reprimidos pelo subconsciente de Donnie e que ele não apresenta sinais de um transtorno psicótico perigoso. Em uma das cenas ela diz para Donnie: “Seu crescente isolamento da realidade parece ser devido a sua dificuldade em enfrentar as forças do mundo que o amedrontam”. Donnie por sua vez confessa em um momento que suas atitudes são “como uma força no cérebro, que me leva a alguns lugares”. O papel da Dra. Thurman não é de explicar e nem desmentir A Filosofia da Viagem no Tempo, apenas ajudar Donnie se tornar “lúcido” com os eventos extraordinários que o cerca. Ele só encontra lucidez com a morte de Gretchen e entende o seu papel dentro da realidade. Daquele momento em diante ele se torna o manipulador de “uma nova realidade”. Em outro diálogo a Dra. Thurman explica um pouco mais este processo de libertação da “realidade ilusória”: “Se o céu ou o sol se abrirem de repente, não haverá lei, não haverá mais regras. Só haverá você e suas memórias. As escolhas que tomou, e as pessoas que tocou. Se este mundo acabar só existirá você e ele. Mais ninguém”. No final ela explica para Donnie que as pílulas que ele está tomando são placebos e que a natureza do problema dele não é tão grave como pensava.

Diferente de sua terapeuta, os “sermões” de auto-ajuda do falso guru, Jim Cunningham, são bastante superficiais. Como em qualquer livro de auto-ajuda a interpretação da “realidade” é feita de maneira simplista, reduzindo as possibilidades de escolhas entre o “bem e o mal”. No livro de Jim Cunningham, essa polaridade é expressa como o “caminho do medo”, ou o “caminho do amor”. O conteúdo do livro se tornou parte do material didático, graças a professora de educação física, Kitty Farmer. Nas aulas onde são exibidos os vídeos, Donnie absorve a informação como estivesse entorpecido. A voz distorcida de Frank o alerta: “Preste atenção você pode perder alguma coisa”. Ele não acredita na “linha da vida” e não quer saber sobre o assunto, mas é confrontado o tempo todo a participar daquela palhaçada. Quando Kitty obriga Donnie a fazer o exercício do programa, ele se revolta e manda a professora enfiar o cartão da “linha da vida” no ânus: “Não se pode dividir as coisas em duas categorias. As coisas não são tão simples (...). O fato de Ling Ling não pegar o dinheiro não tem nada a ver com medo ou amor (...). Outras coisas precisam ser consideradas. Como todo espectro da emoção humana. Não pode colocar tudo em duas categorias e negar o resto”. Não satisfeito, ele desafia Jim Cunningham em uma palestra: “Quanto recebeu para estar aqui? (...) Vai nos dizer para comprar o seu livro? Se for isso, tenho de dizer que foi o pior conselho que já ouvi (...). Acho que você é o Anti-Cristo”. Jim Cunningham é um “falso profeta” que Donnie precisa desmascarar. Só que para isso ele é “manipulado” por Frank para incendiar a mansão de Jim. Com a mansão destruída descobrimos que o suposto guru é na verdade um pedófilo que faz vídeos pornográficos das crianças que abusa. Quando o universo tangente está perto do fim, Jim Cunningham é preso e aguardaria julgamento, sendo salvo pelo apocalipse. Ao acordar no universo primário, ele se desespera e chora compulsivamente (um dos melhores momentos da carreira de Patrick Swayze). O diretor chegou a escrever um epílogo contando que Jim Cunningham se mata pouco tempo depois. Prefiro ficar com o que o filme mostra o remorso e um possível arrependimento, com o medo de ser desmascarado naquela “realidade”. O incêndio na mansão assemelha-se ao que acontece no conto, The Destructors, se tornando uma forma de “criação” através do caos.

Os atos de vandalismo, ou de destruição não são apenas ações inconscientes de Donnie Darko. Neste universo tangente Donnie é o “Receptor Vivo”, onde foi “abençoado com poderes da quarta dimensão” (extraído da Filosofia da Viagem no Tempo). Ao sabotar a escola, é mostrado que ele pode fazer coisas extraordinárias, ou sobrenaturais: “estes incluem força, telecinese, controle mental e a habilidade de conjurar água e fogo” (Filosofia da Viagem no Tempo). Um “super-herói” sonâmbulo. Para quem viu a versão original do cinema, pouco se importa com a existência de “super-poderes”, é um detalhe que pouco agrega a trama. Na versão do diretor vemos esta importância maior do “Receptor Vivo”. Por se tratar de um universo alternativo, Donnie pode fazer coisas que normalmente não conseguiria no universo primário. Se o universo tangente pode ser o universo subjetivo na mente de Donnie, então ele pode ser considerado um “sonhador lúcido”. Quem tem sonhos lúcidos pode manipular o conteúdo onírico e agir de maneira diferente do “mundo real”. Alguns acusam o diretor de usar A Filosofia da Viagem no Tempo na versão estendida para tampar os “furos” do roteiro. Pouco interessa entender como Donnie conseguiu invadir a escola, destruir o cano principal e ainda cravar o machado na cabeça do mascote do colégio. Para isso existe a “suspensão de descrença”, quando existem elementos sobrenaturais que não necessariamente precisam de explicação. Outro elemento estranho que faz parte da versão do diretor são os inserts do olho de Donnie com a pupila dilatada, que curiosamente aparecem quando está para acontecer alguma coisa extraordinária. Existe uma teoria que afirma que os inserts possam simbolizar que Donnie é manipulado por uma “inteligência superior”, ou o “Deus Ex Machina”. O fantasma de Frank (morto no futuro) também é mencionado em uma teoria como o “Avatar de Deus”. Em uma cena da versão do diretor, a professora Pomeroy discute o livro Watership Down, de Richard Adams, sobre como os coelhos (novamente mais uma referência a fantasia de Frank) servem como metáfora da condição humana: “Por que deveríamos nos importar?”, diz Donnie, “Porque os coelhos somos nós”, diz a professora, “(...) Se os coelhos podem falar é porque fazem parte da imaginação do autor que se importa com eles, para que possamos nos importar também...”, diz Gretchen, “Estamos esquecendo sobre o milagre de se contar uma história? O Deus Ex Machina foi o que salvou os coelhos”, conclui a professora. O coelho Frank também simboliza o arquétipo de mentor, sombra (a conseqüência de um ato futuro) e arauto (aquele que anuncia os eventos no universo tangente). Na cena que Donnie vai ao banheiro tomar um dos placebos, ele tem um contato com Frank que está do outro lado do espelho. Talvez seja uma referência indireta com as histórias de Alice, o coelho como elemento presente em dois mundos e o espelho como fronteira entre duas dimensões. Existe também o filme Harvey, (outra possível referência indireta) sobre um coelho gigante imaginário que é o melhor amigo do personagem de James Stewart. Frank é o verdadeiro viajante do tempo nesta história, coexistindo entre presente, passado e futuro. Ainda não sabemos ao certo a relação do Frank do futuro com os “elementos de água” que saem do peito dos personagens. Muitos afirmam que estes “elementos” são a manifestação do terceiro crakra (plexo solar), onde são localizadas as energias referentes à emoção. Seria Frank uma manifestação desta forma de energia? Ou talvez o fantasma de Frank e os “elementos de água” possam simbolizar o Deus Ex Machina dentro do filme. Donnie é apenas o instrumento de manipulação destas representações do sobrenatural. Ele é “forçado” a ter certas atitudes que irá modificar a vida de todos os personagens tanto no universo tangente, quanto no universo primário.

O conceito sobre viagem no tempo é realmente discutido no filme, quando Donnie pergunta sobre o assunto para o professor (de física) Monitoff. O professor fala sobre o conceito básico da relatividade entre espaço e tempo: “O buraco de minhoca. A chamada ponte Einstein-Rose. Teoricamente pode existir uma conexão desse universo com outro universo. Segundo Hawking um buraco de minhoca talvez nos possibilite achar um atalho para saltarmos entre duas regiões distantes do espaço-tempo... Os princípios básicos da viagem no tempo estão aí. Tem a sua nave, ou portal... sendo que sua nave pode ser qualquer coisa”. Em seguida ele apresenta o livro A Filosofia da Viagem no Tempo contando um pouco da história de Roberta Sparrow, a Vovó Morte. Em outro encontro o professor Monitoff continua com o ensinamento: “Com uma espaçonave você viaja ao longo de um vetor através de um espaço-tempo até o centro da gravidade... E para a espaçonave viajar através do tempo ela tem que achar um portal ou um buraco de minhoca”. Donnie responde: “Se Deus controla o tempo, o tempo foi pré-decidido... Todas as coisas vivas seguem um caminho. Se você puder ver seu caminho então poderia ver o futuro, certo? Como uma viagem no tempo”. Monitoff incrédulo diz: “Se pudéssemos ser capazes de ver o nosso futuro, nosso destino então, teríamos uma escolha de trair nossos destinos. E o fato de essas escolhas existirem faria com que todo destino pré-direcionado tivesse fim”. Donnie acredita que Monitoff esconde alguma informação: “Não se você viajar pelo caminho de Deus”. Monitoff encerra o diálogo com medo de perder o emprego no colégio. O embate entre Donnie e seu professor sobre destino versus livre-arbítrio ainda é um tema insolúvel para os físicos. É um grande questionamento no filme que abre a possibilidade para diversas interpretações sobre o assunto. Analisando o filme, acredito que exista um “tempo pré-determinado” onde os destinos estão traçados, mas quando existe o universo tangente pode existir a possibilidade de mudar o que virá no futuro, havendo o verdadeiro “livre arbítrio”. Richard Kelly criou as “suas leis” para este universo fictício e os conceitos sobre o universo tangente apenas funcionam dentro dos seus filmes. A realidade do universo tangente é de curta duração, assim como é a realidade de uma ficção. O universo tangente pode também ser chamado como universo fictício, ou inventado. É na ficção que as teorias físicas se tornam “realidade”. Talvez por isso histórias envolvendo viagens no tempo nos fascinam. A idéia de corrigir um erro do passado, ou poder manipular o destino é algo que praticamente todos já pensaram nesta possibilidade. A possibilidade em conseguir viajar no tempo é levado a serio por inúmeros físicos e vários investimentos são feitos para que a ficção vire realidade. É impossível para eu debater sobre este assunto em um único texto. Em outras análises irei fazer um paralelo sobre A Filosofia da Viagem no Tempo com os outros filmes de Richard Kelly.

Para finalizar, falaremos sobre o ultimo ato do filme. Quando faltam poucos dias para o “fim do mundo” acontece uma catarse com todos os personagens, sendo obrigados a confrontarem seus piores problemas. Donnie é o catalisador e agente causador destas mudanças. Jim Cunningham é preso, motivo que impede Kitty Farmer viajar junto com as Sparkle Motion. A mãe de Donnie fazer esta viagem com a irmã mais nova. A professora Pomeroy é demitida da escola por ser considerada subversiva. Elisabeth, a irmã mais velha é aprovada em Harvard e resolve dar uma festa na noite de Halloween. A Gretchen fica com Donnie na festa e em seguida morre atropelada pelo Frank do presente. Quando Donnie mata Frank ele entende a sua missão. O auto sacrifício é necessário para salvar todos quem ele ama, ou se importa. Antes de viajar de volta para o passado, Donnie observa o “buraco de minhoca” formando no céu e lembra-se de toda a sua jornada no universo tangente. Na versão do diretor a “viagem de volta” é mostrada um insert do olho de Donnie, com códigos de computador passando rapidamente, aparecendo flashes dos acontecimentos daquela realidade e uma voz artificial faz uma contagem regressiva, terminando a montagem com o aviso de “purificação”. Donnie Darko volta para o universo primário como despertasse de um longo sonho. Ele está rindo, talvez por achar que tudo não passou de um sonho, ou quem sabe por estar “zombando” do seu destino fatal. Após a turbina do avião matar Donnie vemos uma montagem de cenas mostrando os personagens “despertando” do universo tangente. Cada personagem sente algo diferente, como ficasse algum resquício daquela outra realidade. A música Mad World interpretado por Gary Jules reforça este sentimento de melancolia expressado pelos personagens. É triste (em minha opinião) ver a família Darko chorando, enquanto o corpo de Donnie é tirado dos escombros. Temos este apelo emocional nesta cena final, quando Gretchen acena para a mãe de Donnie como sinal de empatia pela dor da família. Apesar de Gretchen não ter conhecido Donnie naquele universo, ela consegue se comover com a morte dele. O que nos leva a questionar se o universo primário apresentado no final do filme é mesmo real. Retomo a teoria do “universo subjetivo”, que tanto o universo primário e o tangente fazem parte da mente de Donnie Darko. Em uma de suas ultimas frases ele diz: “Espero que quando o mundo acabar eu sinta um alívio, porque poderia viver por isso”. Talvez Donnie tenha se tornado o Deus Ex Machina desta nova realidade. Algo parecido com o que acontece no filme Sucker Punch (sem spoiler) onde é criado outra realidade através da subjetividade da protagonista. Donnie Darko é um filme sobre questionar a realidade como a percebemos e assim como o herói-protagonista tentamos nos encaixar e entender o nosso propósito dentro deste universo.

Encerro esta minha análise sobre Donnie Darko. Coloco abaixo alguns links que servem como leitura complementar sobre o assunto. Existe ainda muito assunto para ser debatido, mas prefiro abordá-los em outras oportunidades. O próximo texto da serie Virando do Avesso será sobre o segundo filme de Richard Kelly, Southland Tales – O Fim do Mundo. Gostaria de saber a opinião de vocês sobre esta análise e podem se quiserem mandar sugestões de filmes para os próximos textos desta serie.

http://cinefilosofia.com.sapo.pt/artigos/conteudo/donnie.htm


http://cinefilosofia.com.sapo.pt/artigos/conteudo/donnie2.htm

4 comentários:

  1. Ótimo texto Thiaguinho!
    Eu não cheguei a assistir a versão original... somente a do diretor.
    Me lembrei de um texto que escrevi para a aula de análise cinematográfica, onde (viajei) além de falar sobre viagem no tempo, relacionei com o 11 de setembro.
    Ótimo filme!

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  2. Fascinante, me esclareceu alguns pontos, aliás, quando não há pontos para esclarecer se tratando de Donnie Darko?
    De fato, é um filme que fica revirando nossa cabeça durante dias e mais dias, aborda um assunto que há sempre um 'porém', o que torna Donnie Darko único.
    Filme maravilhosamente complexo que deve ser visto e revisto sempre que possível. Simplesmente genial em todos os pontos, enredo, elenco, teorias e trilha sonora.
    Assisti semana passada e já estou com vontade de assistir novamente. É um filme de 2001, mas ainda faz muita gente quebrar a cabeça.

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  3. Este filme me deixou pensando muito entre estes é a hipnose, que eu acho que é uma questão que não tem data de expiração para produções de cinema. Eu comecei a investigar o assunto e encontrei-me com uma série chamada O hipnotizador estrelado por Leonardo Sbaraglia que está em um grande desempenho. Altamente recomendado.

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    1. Gostei bastante desta série. Interessante o jogo entre os hipnotizadores, a obsessão por controle e a questão sobre o livre arbítrio.

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